terça-feira, junho 20, 2006

não ler esta merda!



Não sou pessoa de chorar. É raro, já há muitos muitos anos. As poucas vezes que se sucederam foram, talvez, em situações menos compreensíveis para a maior parte das pessoas. Hoje aconteceu...

Não houve nada de especial neste meu dia de vida. Mais um. Algumas desilusões. Trabalho. Alguns risos e sorrisos, não muitos, pelo menos verdadeiramente sentidos.

A noite [já cheguei às 22h], dediquei-a a fazer uma coisa que gosto bastante. Um entretém que me cativa há já alguns anos, ver séries televisivas.

Pergunto-me a mim próprio, serEmot, o que foi então que me fez chorar intensamente e tão profundamente?
Uma mera série de televisão: Sete Palmos de Terra. Segunda-feira à noite é dia da série na :2. Não a acompanho directamente da televisão, vou tirando os episódios que estão a passar actualmente na televisão - normalmente adianto-me um ou dois - e vejo. Esta semana ainda não tinha visto o da semana passada. Por isso, em vez de ver o que deu na tv, vi o da semana passada (8) e, de seguida, o desta semana (9).

Confusão? Talvez. Sim! Porra! Caguei! Ela já me tinha avisado para o choque do episódio desta semana. Ele tem uma espécie de trombose, AVC, entra em coma, "ressuscita". Define novas e cruéis prioridades na sua vida, com o estilo simpático e descontraído que o caracteriza e... morre inesperadamente, quando já ninguém o esperava. Ele era a peça fulcral e que unia todas as outras vidas nesta série de Allan Ball... e, a três episódios do fim, morre. Morre. Assim. Morreu. Morre?

Para série de televisão de massas seria impossível conceber esta morte ou mesmo fazê-la deste modo, mas ainda bem que as massas ainda não são tudo.
A morte "caiu do céu" em surpresa total. Não houve tempo de ninguém se despedir, não houve mensagens últimas de esperança ou alegria. Nada! Foi ficcionalmente e dolorosamente real e selvática, triste e espontânea, tal como Nate. Nate Fisher.

Foi assim que terminou esse episódio, o de hoje. Colocou-se no fim a habitual morte que costuma aparecer no inicio e ser de um anonónimo, só que, neste caso era o próprio Nate e o episódio culmina com isso mesmo. Com a mesma "receita" de morte dos outros episódios.

Algo chocado e atarantado... (era 00:30) segui a sugestão dela e vi, na :2, a nova série, L Word, sobre casais de lésbicas - curioso, engraçado... muito lesbianismo... não foi má.

01:15. Nate. Nate. Nate. Nate. Nate. Nate... ... ... A curiosidade sobre o que vai acontecer a Nate fica a ruminar, ao de leve, mas de forma sentimental na minha cabeça...
será que morreu?
não quero que morra... detesto-o pelo que fez... mas não quero que morra...
vai haver um regresso... Ele não morreu assim. Não pode ser!



01:16. Aí estou eu a "matar" a curiosidade...
All Alone [is all we are] é o nome do episódio. Não faço questão de olhar ou pensar muito no nome. Não gosto de ir com expectativas ou ideias pré-concebidas, tanto para filmes como para experiências como esta. No decorrer dos cerca de 50 minutos que a experiência dura há toda uma história sentimental, em relação às pessoas da série e à vida em geral, que é reavivada.
Começa com a dor das pessoas próximas. Não há pormenores da morte nem mais imagens do hospital onde só o vimos, brevemente, a parar... de viver [não há ressuscitação médica... nada].
Parte-se logo para o sofrimento, no inicio do episódio (10). Não há preparação para o expectador sentir dor. Aparece logo nos primeiros frames, na nossa frente. Não deixo de magicar que quem não viu ambos os episódios de seguida não sentiu aquela dor inicial de forma tão clara como eu, mas esta é uma série que não é assim tão simples nos sentimentos.


A dor. A dor da perda.
Ele era tão apreciável, momentos antes de morrer vi-o como um sacaninha. Depois de morrer veio a dor da perda. Não há actores no que as imagens transmitiram. Aquelas pessoas têm tanta personalidade e vida própria, são pessoas, não personagens, é isso que senti verdadeiramente e mais do que nunca ontem à noite. Foi a dor da perda de Nate, a dor da perda desta experiência e familia tão intensa (os Fishers) - a série acaba em mais 2 episódios (12) -, a dor ambígua que é transmitida pelos próximos de Nate.
Nunca nenhuma série de televisão me tocou de forma tão intensa como esta. A forma como se lida com a morte e a vida é original, profunda e tocante (por ser tão cruelmente verosímil); mas estes episódios, especialmente o All Alone é o culminar de tudo isso. A morte do centro de todas aquelas histórias. Um centro, uma pessoa, Nate, que não era totalmente simpático, tornava-se irritante, e até termina sendo cruel. Mas as pessoas são assim, nós somos assim, eu sou assim.
A dor da perda mantém-se intensa e esta experiência de 50 minutos lida com isso de forma tão ridícula como profundamente triste e verdadeiramente sentimental.
Tanto nos podemos desatar a rir como desatar a chorar baba e ranho, com arrepios e tudo.

Escusado será dizer que eu desatei...
a chorar baba e ranho, com arrepios e tudo... e tudo...

Era só uma série de tv? Talvez. Não! Nunca! Merda! Foi uma experiência triste e memorável. Não foi directamente uma experiência de vida, mas é algo que pode e irá, muito provavelmente, fazer parte de mim. Porquê? Por tudo aquilo que senti e que não exprimi em todas estas palavras. No final, depois de ter a experiência:
All Alone is all we are [música dos Nirvana]
Tem um significado imensamente diferente. Tem uma expressão e ideologia inerente.
Porque no fim, desta experiência e da minha vida...




All Alone is all we are